Dormindo com o inimigo
- Renata Zoppello
- 10 de mar. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de fev.
A mensagem desta história é sobre a violência que não se vê, mas que é também vivida com sofrimento extremo e silencioso que passa despercebido, que destrói a autoestima e a identidade. Serve de alerta que a violência contra a mulher existe indiscriminadamente em todas as classes sociais, credos, níveis socioeconômico e de instrução.
Os nomes e as datas precisas serão omitidos para preservar os envolvidos, mas qualquer semelhança não será mera coincidência, isto acontece muito mais do que é possível imaginar e muito perto de nós.
“Minha história desde o início tinha todos os indícios de que se tratava de um relacionamento abusivo, porém na época em que começou quase nada se falava sobre isso, apesar de já existir o movimento feminista, a sociedade era muito mais fechada com relação a esse assunto.
Tinha pouco mais de 20 anos e conheci um homem 10 anos mais velho, o relacionamento começou despretensioso, mas em pouco tempo evoluiu para um compromisso mais sério e em três anos estava casada.
Os primeiros seis meses foram um período de intensa sedução e conquista, o abusador não precisa ser “bonito”, porém é sempre muito hábil em reconhecer as fraquezas de sua vítima e usá-las contra ela mesma, e assim foi comigo também… Aí começaram os primeiros ataques à minha confiança e autoestima, toda vez que descordava de algo ele alegava que eu era muito inexperiente e por isso não tinha clareza de ideias e ele por ser mais experiente sabia o que era melhor, na sequência vieram o ciúmes, os ataques velados aos amigos antigos, o controle sobre as roupas, as reprimendas ao meio jeito de falar e me expressar e a cara fechada sem motivo aparente com longos períodos de silêncio que me levavam sempre a pensar – o que eu fiz de errado?”- pois com o tempo eu tinha a certeza que eu era responsável pelo humor dele e culpada quando as coisas não iam bem.
Em paralelo, com todas as pessoas do meu entorno ele sempre muito simpático e solícito, principalmente com minha família e assim foi conquistando a confiança deles e quando eu reclamava de algo sempre ouvia como eu tinha sorte de ter ao meu lado alguém tão gentil, educado, dedicado e bem sucedido, isso fazia com que eu me sentisse mais confusa, ingrata e culpada pela minha insatisfação.
E assim, mesmo antes de casar já estava presa no ciclo de violência doméstica, onde após cada briga acontecia um pedido de desculpa ou uma demonstração de carinho, algum tipo de reparação e eu fui me contentando com as migalhas recebidas, pois afinal estava convencida que nenhum relacionamento é bom para sempre e eu tinha que agradecer por ter alguém ao meu lado, já que eu era uma pessoa de pouquíssimo valor e as minhas queixas muito mesquinhas.
Com o casamento claro nada mudou, pelo contrário com o passar dos anos a situação só piorava, os filhos nasceram, todo patrimônio que eu tinha recebido como herança estava incorporado a um negócio familiar, quando casei abandonei a minha profissão de formação, a possibilidade de sair deste relacionamento ficava cada vez mais remota e me conformei que este era meu destino.
Quem via de fora não fazia ideia da vida que eu levava, fui responsabilizada até por um aborto espontâneo que tive na primeira gestação, o motivo foi que por eu não ter um bom coração não merecia ter um filho; isso foi dito assim que eu voltei da anestesia após a curetagem. Constantemente ouvia as frases “pra quem está bom”, “você é burra mesmo”, “só falta eu ter que ir ao mercado!”, “eu não reclamo de nada, mas é só isso para o almoço?”, “se acontecer alguma coisa com essas crianças a culpa será sua” e por aí seguia… Tudo dava a entender que eu era irresponsável, sem comprometimento com o trabalho, com a família e que merecia ser castigada pela minha falta de gratidão por tudo que ele achava que me proporcionava.
Do meu lado da história eu tinha que administrar a rotina da casa, apesar de ter uma ajudante que fazia o serviço da casa, ainda sobrava pensar em tudo, cuidar da rotina de três filhos, do meu trabalho na empresa e também de assessor os pais dele que eram vizinhos e idosas, levá-los ao médico e o que mais eles precisassem; era muita coisa e mesmo assim não era suficiente… A ele cabia trabalhar e ao chegar em casa e tudo estar ao seu dispor, arrumado, abastecido e em ordem.
Até que entrei num colapso, e desenvolvi um processo depressivo grave com síndrome do pânico e resolvi parar de trabalhar na empresa familiar que tínhamos e voltei a estudar, com isso o desprezo cresceu junto com as agressões verbais e humilhações, acusações de inúmeros tipos e apesar de estar em tratamento meu estado emocional tinha grandes oscilações, estava muito difícil manter as aparências. Eu não podia deixar transparecer minha tristeza ou insatisfação, então em público parecia uma realidade completamente diferente da realidade, quando chegávamos em casa o desprezo e as retaliações começavam, voltar para casa era como entrar num presídio. Finalmente após 20 anos pedi o divórcio.
Mais que depressa ele assumiu o papel de vítima perante todas as pessoas de nosso relacionamento dizendo que não tinha ideia do que tinha acontecido, do porquê desta atitude tão intempestiva da minha parte, chorava copiosamente quando falava do assunto, e fez com que eu parecesse louca e obviamente adultera afinal até remédio tarja preta eu tomava. Realmente fui tida como uma pessoa muito perturbada e leviana, traidora, negligente e mal-agradecida. Em nenhum momento foi mencionado o quanto eu pedi que fizéssemos uma terapia de casal, que ele fizesse terapia, que eu já há muito tempo dizia o quanto estava infeliz e insatisfeita com a relação.
Até este momento eram claras as agressões verbais, a violência psicológica e moral, mas aí uma noite por mais que eu tivesse pedido que ele parasse, que eu tivesse dito não repetidas vezes, ele me violentou. Contei para pouquíssimas pessoas e qual não foi meu espanto quando ouvi “ele não seria capaz, você deve estar enganada, não é possível e você deu mole!”, conclusão não tive coragem de ir na delegacia e isso me atormenta até hoje, me pergunto sempre como deixei isso passar? Naquela hora a vergonha, o medo do julgamento e da exposição, a humilhação, o receio de expor meus filhos, o nojo e a falta de apoio pesaram muito na minha decisão.
A partir daí mesmo sem o divórcio formalizado saí de casa com meus filhos, ele não aceitou nenhum tipo de acordo e no final acabei fazendo um acordo péssimo de divórcio que carrego as consequências até hoje, mesmo vários anos depois, mas consegui ao menos garantir a segurança e alguma estabilidade para meus filhos e a distância deste monstro.
Estou refazendo minha vida, continuo em tratamento, mas as cicatrizes deixadas por mais de vinte anos de abusos ainda abrem de vez em quando, talvez o que doa muito é a invisibilidade desta dor, o desrespeito por este sofrimento, a pergunta que não foi feita por ninguém “-será que não tem algo errado com esta história?, ele é tão vítima assim?”, “e ela, não precisa de algo?”
CUIDADO mulheres! Jamais permitam sob qualquer alegação que alguém queira mudar quem você é.

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